Por que ouvir o funcionário
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2003
João Alberto Bordignon |
por Sabrina Fernandes
Dar voz aos colaboradores não é mera retórica na Nutrimental. A prática de ouvir o que seus funcionários têm a dizer é considerada ferramenta das mais estratégicas. Tanto é que a indústria alimentícia segue metodologia específica para esse fim, a Appreciative Inquiry ou investigação apreciativa.
Criada pelo professor norte-americano David Coperrider, a técnica se baseia na realização de entrevistas, debates e investigação de processos, com foco na melhoria e desenvolvimento organizacional.
Desde que a Nutrimental começou a aplicar a metodologia da investigação apreciativa, em 1997, não parou mais, e acabou virando referência nacional e internacional no assunto. “O próprio David afirma que somos a empresa mais avançada no processo”, afirma o patrocinador executivo da empresa João Alberto Bordignon. Sediada em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba (PR), a Nutrimental fatura R$ 120 milhões (previsão de fechamento para este ano) e conta com um time de 750 colaboradores.
É de lá, da sede, que João Alberto, há 33 anos na Nutrimental, formado em Engenharia Química pela Universidade Federal do Paraná, fala com exclusividade ao canalRh sobre o Appreciative Inquiry.
canaRh- Na prática, como funciona essa teoria?
João Alberto Bordignon – Há quatro passos, os chamamos 4Ds, que resumem a metodologia. O primeiro é o Discovery, em que avaliamos, em relação ao processo em estudo (política de remuneração, por exemplo), as coisas boas oferecidas pela organização e investigamos as melhores práticas do mercado; o segundo, o Dream, para refletirmos sobre as qualidades reais do processo e eventuais melhorias; o Design, quando traçamos o caminhos para concretizar o sonho; o Destiny, que é o momento de colocar em prática aquilo que foi planejado.
canaRh- Essa ferramenta tem o diferencial de envolver todos os funcionários nos processos de mudança. Como isso é feito?
Bordignon – Uma vez por ano, reunimos colaboradores, fornecedores e consultores externos. Durante o encontro, todos opinam sobre o assunto em questão. As sugestões são discutidas e, se possível, colocadas em prática.
canaRh- A idéia dessa metodologia é atuar em uma área específica?
Bordignon – O processo é contínuo e aplicado em todas as áreas de negócio. Porém, não ocorrem simultaneamente, por exigirem tempo e mobilização de um grande número de pessoas. Além disso, dependendo das exigências de melhorias, são necessários grandes investimentos. A metodologia é aplicada conforme a demanda e as necessidades. Por isso optamos por um encontro anual para a preparação do planejamento estratégico da empresa tendo como base essa metodologia.
canaRh – A empresa hoje vem utilizando essa ferramenta para algum projeto específico?
Bordignon – Sim, o de remuneração. Também já fizemos uma reformulação nos processos de contratação, seleção, integração e dispensa de funcionários. O pessoal de marketing usa regularmente as técnicas de investigação apreciativa para avaliar o que os consumidores acham dos produtos da Nutrimental.
canaRh – O que mudou na empresa após a adesão dessa metodologia? Bordignon – Passamos a compartilhar com nossos funcionários uma visão de futuro, oferecendo-lhes oportunidade de aprender e de ensinar. Criamos, por exemplo, o Projeto Crescer , aberto aos funcionários que não concluíram – e desejam fazê-lo – o primeiro grau. Oferecemos também bolsas de estudo para quem faz curso universitário relacionado ao trabalho desempenhado na empresa.
Aumenta consciência da ética nas empresas, diz professor da USP
segunda-feira, 11 de agosto de 2003
Robert Henry Srour
por Sabrina Fernandes
As empresas acordaram para a importância da ética principalmente nos últimos dez anos, mas os códigos adotados muitas vezes não passam de discurso vazio. É o que acredita o sociólog e professor de MBA da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), Robert Henry Srour.
Autor do livro Ética Empresarial, lançado este ano em segunda edição, Srour diz que durante muito tempo, as ações no mundo dos negócios foram norteadas por atitudes que visavam a obter lucros a qualquer custo. "Com isso, a imagem e a credibilidade das empresas foram se deteriorando, o que, aliás, não é uma realidade só do nosso país", explica o professor.
Para ele, escrever tão-somente um código de conduta não resolve o problema. Estudioso da ética há 12 anos, ele afirma que a maioria das empresas brasileiras ainda não é ética. O alerta do especialista? A crescente competitividade do mercado é acompanhada por critérios cada vez mais rígidos de credibilidade. Para criar, consolidar ou manter uma imagem de confiança é preciso cuidar constantemente das ações que a empresa assume ou das decisões que toma.
Em uma conversa com o canalRh, o sociólogo fala dos motivos sociais que auxiliaram uma mudança na postura no mundo dos negócios, teorias e, claro, fala também sobre a ética.
canalRh - Qual a importância da ética nos negócios?
Robert Henry Srour - É a ética que vai definir um posicionamento crítico da empresa no mercado.
canalRh - O senhor diz que as empresas estão se dando conta disso. Por qual razão seria?
Srour - É que elas não estão mais tão impunes. Se olharmos para o Brasil, podemos perceber que, na década de 90, tivemos a abertura de mercado, a diversificação da mídia, a vigência do código do consumidor e a consolidação da democracia representativa. Nossa sociedade civil está muito mais ativa e começou a fazer fortes pressões para que as empresas fossem socialmente responsáveis. Mas o fundamental foi a mudança na economia: o mercado se tornou mais competitivo.
canalRh - Isso significa que a ética até então não era uma preocupação?
Srour - Na realidade, essa situação se tornou mais visível de uns dez anos para cá, justamente em função das novas condições históricas. Os clientes em particular não toleram mais condutas irresponsáveis, que são parte importante do escopo da ética empresarial. Embora a ética como disciplina teórica exista desde os gregos, há 2.500 anos, os estudos de ética nos negócios deslancharam há uns 40. E foi nesse período que se desenvolveu uma vertente científica da matéria.
canalRh - Como é essa abordagem científica?
Srour - Uma empresa pode elaborar um código, de forma filosófica, ou seja, estabelecer um conjunto de mandamentos a serem obedecidos pelos funcionários, a partir das expectativas gerais da sociedade, sem ter muita clareza estratégica nem definir uma razão prática do porquê de suas escolhas.
A ciência não trabalha assim. Ela tem de provar o porquê dos posicionamentos e das afirmações. É aberta e cautelosa quanto aos impactos das ações produzidas. Uma empresa que se orienta de forma científica faz uma análise histórica das circunstâncias, das forças em presença, dos fundamentos que a levam a adotar tais ou quais orientações morais.
canalRh - Podemos dizer que os empresários brasileiros são socialmente responsáveis?
Srour - A grande maioria, infelizmente, ainda não o é. Muitas empresas, por exemplo, sonegam imposto no Brasil. Sabemos o quanto isso é prejudicial à nossa economia e à sociedade. O que percebemos é que ainda se joga muito na base da esperteza e do oportunismo. De qualquer forma, existe uma evolução para melhor, porque hoje as pessoas toleram menos fraudes e enganações.
canalRh - Isso é uma questão cultural?
Srour - Pode-se até dizer que sim, mas não só: há questões políticas e econômicas também envolvidas. E isso ocorre no mundo inteiro. Existe uma ONG alemã chamada Transparência Internacional que faz freqüentes estudos sobre o tema da percepção da corrupção. Em 2002, o Brasil obteve nota 4 (em 10) e ocupou o 45.º lugar entre os países menos corruptos do mundo. O último colocado é Bangladesh, na 102.ª posição.
canalRh - E quanto aos códigos de ética adotados em algumas empresas?
Srour - No Brasil existe certa tendência em formalizar códigos, mas eles ainda se parecem mais a cartas de intenções. Se realmente serão aplicados... aí é outra história.
canalRh - Quais as prioridades mais comuns que se podem observar nesses códigos? Em que eles falham?
Srour - No geral, eles abordam as diretrizes para a relação com as várias partes interessadas: funcionários, acionistas, clientes, fornecedores, autoridades, organizações da sociedade civil etc. A prioridade é disciplinar o tratamento com os interlocutores da empresa, criar uma relação de confiabilidade com o produto e, com isso, estabelecer uma imagem institucional. O problema é que as empresas normalmente elegem princípios e valores edificantes, mas, na prática... Ou seja, a maior falha é justamente falar muito e pecar pela falta de ações concretas.
canalRh - E qual seria a melhor maneira de formular um código de ética?
Srour - Fazer uma análise científica da cultura e das práticas vigentes dentro da empresa e elaborar um código que se aproxime dessa realidade. Não adianta querer fazer sermão, descolando-se do que se faz efetivamente na empresa; isso não funciona. É importante ter transparência e pés no chão para que a análise ética possa ser competente.
canalRh - Qual é o foco de uma gestão de reputação?
Srour - É manter sua credibilidade, um ativo intangível que vale muito. Você leva décadas para construir uma reputação e pode levar menos de uma semana para destruí-la.