Patrícia de Assis Revista Canal RH - ano 1 - nº 9 - Abril de 2002.
“Quem recebe comunicação nas empresas quer informação de qualidade, quer consistência e periodicidade”. A afirmação do presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE) e diretor de Assuntos Corporativos da Natura, Rodolfo Guttilla, traduz uma nova fase da comunicação empresarial. Segundo ele, cada vez mais essa ferramenta passa das mãos de recursos humanos para áreas específicas de comunicação. O processo traz vantagens. “Quando a comunicação está em recursos humanos é um assunto secundário. A função específica de recursos humanos é definir políticas e implantar práticas de gestão de pessoas”. Para Guttilla, o atual estágio de desenvolvimento desta ferramenta no Brasil, tão importante para a promoção das atividades empresariais, está no mesmo patamar das americanas, berço da comunicação empresarial.
Canal RH - A Comunicação tornou-se peça decisiva dentro das organizações. Qual a importância dela como ferramenta estratégica? Rodolfo Guttilla - Ela tem o poder de alinhar percepções, conceitos, idéias e dizer quais são os caminhos, práticas, metodologias ou abordagens que devem ser utilizados para materializá-los. A função estratégica da comunicação é transformar a idéia em resultado.
Canal RH - No ambiente empresarial de hoje, a comunicação está muitas vezes centralizada nos profissionais de Recursos Humanos. Como você avalia esse cenário? Rodolfo Guttilla - Na minha percepção, existe um movimento de transição. A comunicação não é mais uma atribuição da área de recursos humanos. Boa parte das grandes empresas tem hoje uma área de comunicação, com atividades integradas. Quem não faz comunicação para o consumidor final, está integrado naquelas áreas que se convencionou chamar de assuntos corporativos, comunicação corporativa, comunicação institucional.
Canal RH - Quais são as vantagens de centralizar esse papel na área de RH? Rodolf Guttilla - Quando a comunicação está em recursos humanos é um assunto secundário. A função especifica de recursos humanos é definir políticas e implantar práticas de gestão de pessoas. A comunicação é também ferramenta de gestão de pessoas, mas, quando você tem processos como preparação para aposentadoria, recrutamento, seleção, processos de desligamento, benefícios diretos, salários indiretos, salários e remuneração variável, ela acaba sendo um fator secundário, ficando para depois. Quando tem área própria, ela acontece no mesmo tempo.
Canal RH - E quais as vantagens de ter essa área específica e em que momento este desmembramento deve ocorrer? Rodolfo Guttilla - As vantagens são muito evidentes. Quem recebe a comunicação de uma empresa - seja ele como colaborador, funcionário, fornecedor, parceiro, imprensa ou acionista - não está preocupado em saber de onde sai a informação. O que ele quer é consistência, alinhamento e peridiocidade. Ou seja, as informações, que saem de várias fontes, devem chegar a um fluxo previsível e não apenas de vez em quando ou ao sabor de fatos internos. A área que reúne mais competência para oferecer equilíbrio é a dedicada exclusivamente à comunicação.
Canal RH - Como o senhor vê a terceirização desses serviços? Rodolfo Guttilla - Vivemos um período de terceirização selvagem, mas estamos caminhando para um ponto de equilíbrio com a percepção de que há uma parte - inteligência e estratégia - que não pode ficar fora da empresa. A operação sim. A Natura, por exemplo, tem uma área relativamente grande, com 20 pessoas, que faz a comunicação para todos os públicos, exceto o consumidor. Entretanto, toda a produção de comunicação está fora. Há aproximadamente 25 fornecedores. Eles fazem desde publicações periódicas até as especializadas, como os balanços e relatórios anuais.
Canal RH - E a coordenação da estratégia pode ficar nas mãos de RH? Rodolfo Guttilla - Acho que qualquer carimbo é ruim. A nossa área de comunicação já tem um traço corporativista que envenena a atividade: só que tem registro pode atuar como RP; somente o jornalista com registro pode atuar. Isso é importante, mas no caso de profissional de comunicação empresarial não interessa se ele é relações públicas, publicitário ou jornalista. O importante é conhecer o repertório de comunicação e tê-lo como principal item de sua agenda.
Canal RH - Como tornar a relação eficiente, quando o coordenador da área de comunicação não é especializado na área? Rodolfo Guttilla - Os caminhos ficam muito mais favoráveis se o profissional for de comunicação. O profissional habilitado, experiente, vai saber avaliar o trabalho sobre as perspectivas de custo, prazo e qualidade. Somente quem conhece a rotina de um jornal ou já passou por uma redação sabe a dificuldade que existe para colocar um newsletter na rua, todo mês ou a cada 15 dias, com rigor, critério e qualidade de um veículo de banca. Hoje as pessoas não querem um jornalzinho “chapa branca”, querem saber para onde vai a administração, com informação de qualidade que ajude a melhorar o trabalho, a gerir e a atuar com mais segurança. E quem sabe fazer isso é o profissional de comunicação.
Canal RH - Qual a visão do presidente da ABERJE sobre a comunicação nas empresas de um modo geral? Rodolfo Guttilla - A comunicação nas empresas hoje é de muito boa qualidade. Pertenço à ABERJE há mais ou menos seis anos e, desde então, tenho entrado em contato com profissionais de vários países. Percebo, sem medo de soar pretencioso, que a comunicação brasileira é de altíssima qualidade. Ela dá um “banho” tanto na comunicação européia, que é muito formal, como na Argentina. E está em condições de igualdade com a que se pratica nos Estados Unidos.